Metodologia de trabalho: conceção ideológica
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Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.
Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.
U~a graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.
Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.
Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.
Escolhido o poema, faltava reunir tudo o que
ele significava e transmitia. Há um choque enorme de realidades distantes. No
início, o determinante “Aquela” mostra essa mesma distância (senão, seria
“Esta”). Tratar-se-á de um amor proibido que Camões vivera na Índia.
O jogo de palavras entre “cativa”/”cativo”
expressa também o amor proibido. Apesar de se tratar de uma mulher de outra
classe social, de uma colónia, Camões estava preso a ela afetivamente. Por
isso, ora no sentido literal, ora no figurado, encontravam-se os dois cativos.
O poeta segue
para uma descrição de Bárbara com recurso a hipérboles, antíteses e outros
recursos de estilo que realçam o facto de a cativa não seguir os cânones de
beleza da altura (“Pretos os cabelos, /
Onde o povo vão / Perde opinião / Que os louros são belos.”, por exemplo).
No final, verifica-se o uso de “Esta” (em “Esta é a cativa”) o que formaliza a
aproximação do sujeito poético à escrava. Bárbara é parte de sua vida e, por
ela, deve continuar a viver (“É força que
viva”).
A ideia da interpretação visual passou por demonstrar esta aproximação e
dicotomia entre “Aquela” e “Esta”. Tentou-se transmitir os mecanismos naturais
e indomáveis de defesa e desconfiança quando se aproxima de alguém novo, no
início de uma relação. Para isso, recorreu-se a uma imagem emblemática e
reconhecida mundialmente por estar relacionada com estes sentimentos.
“Most of my images are grounded in people. I look for the unguarded moment, the essential soul peeking out, experience etched on a person’s face.” (McCurry, 2010: 44)
A composição tipográfica foi, então, baseada na fotografia de Steve
McCurry denominada Afghan Girl. Esta
imagem retrata Sharbat Gula e a situação mundial de refugiados, tendo sido capa
da revista National Geographic, em
1985.
Numa ótica mais técnica, há que mencionar que o projeto foi iniciado no Adobe Illustrator CC 2015, mas foi
terminado na versão CS5 pelo que o
ficheiro sofreu algumas alterações nos agrupamentos dos elementos. Contudo,
estes problemas não prejudicaram o resultado final.

